Presidente do BCE quer reduzir endividamento para evitar mais uma “década perdida”

É preciso evitar mais uma década perdida e combater o endividamento, que é a maior ameaça ao crescimento, advertiu o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet.

É preciso evitar mais uma década perdida e combater o endividamento, que é a maior ameaça ao crescimento, advertiu o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet.

Os governos e os bancos centrais devem garantir, que tomaram medidas para amortecer a contracção económica e evitar o colapso do sistema bancário mundial durante a crise financeira de 2007-2009, têm agora de encontrar uma forma de reduzirem as suas dívidas sem comprometerem o crescimento económico, afirmou Jean-Claude Trichet, citado pela Reuters. Trata-se de um exercício de equilíbrio muito delicado, acrescentou.
O presidente do BCE, que esteve presente no simpósio anual da Fed de Kansas City que teve lugar em Jackson Hole (Wyoming), salientou que “o maior desafio macroeconómico dos próximos 10 anos é assegurar que [esses mesmos 10 anos] não se transformam em mais uma década perdida”.
Trichet apelou à austeridade orçamental três meses depois de ter velado pela protecção da Zona Euro para que não entrasse numa espiral de crise da dívida, refere a Bloomberg na sua análise ao discurso do presidente do BCE. “A sua perspectiva choca também com a preferência do presidente norte-americano, Barack Obam, pela focalização no estímulo ao crescimento”, sublinha a agência.
Trichet manteve a política do BCE de não falar sobre política monetária, a uma semana da reunião do conselho de governadores para definir os níveis das taxas de juro. Focalizando-se mais no longo prazo, Trichet afirmou, citado pela Bloomberg, que o endividamento dos particulares, empresas e governos tem a derradeira responsabilidade pelo abrandamento da retoma económica e que é preciso reduzir essa dívida para que haja estabilidade e crescimento nos próximos anos.
Segundo as estimativas apontadas por Trichet, no final de 2010 a dívida soberana da Zona Euro terá aumentado em 20 pontos percentuais desde 2007, sendo que esse número dispara para 45 pontos percentuais quando se fala nos EUA e no Japão. Reduzir a dívida da Europa para 60% do PIB irá exigir uma redução de 30 pontos percentuais, declarou.
Na mesma reunião, e umas horas antes, Ben Bernanke deu um tom mais positivo ao seu discurso, dizendo que a Reserva Federal norte-americana – à qual preside – fará tudo o que for possível para salvaguardar o crescimento da economia dos EUA.
Atendendo a que, com as taxas de juro em torno de zero, não é possível tomar medidas pela via monetária, Bernanke referiu que a Fed poderá ir recomprando dívida associada ao mercado hipotecário conforme for chegado à maturidade a que detém em carteira. O “The New York Times” destaca que, com os discursos de Bernanke e de Trichet, ficaram bem patentes os caminhos diferentes das economias europeia e norte-americana.
“Enquanto Bernanke tentou tranquilizar os americanos, afirmando que a Fed tem capacidade para evitar um impasse na retoma económica dos EUA, Trichet proferiu uma palestra aos governos europeus acerca da necessidade de mudarem os seus perdulários hábitos de gastos das últimas décadas”, refere o jornal norte-americano.
“E enquanto Bernanke se coíbe de, neste momento, falar sobre regressar a uma normal política monetária, Trichet está a sair do modelo de crise e a falar abertamente sobre ‘reabsorver a excessiva liquidez”, realça o “NYT”.

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